sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Diz que é uma espécie de democracia...

... quando a informação é isenta e neutral.

Pois é! E isto não é uma defesa de Mário Crespo, nem quero que as minhas declarações a um jornal nacional figurem na página on-line da Fundação Sá Carneiro.
Aquilo que questiono é o porquê de uma manifestação tão considerável de funcionários da administração pública e local ser absolutamente relegada da agenda mediática.

Para não deixar dúvidas acerca destas breves linhas, vejam o i, o DN, o Expresso… isto, para não falar dos telejornais desta noite.
De facto, para mentes simplistas, poder-se-ia dizer que aquilo que os sindicatos querem é propaganda. Ora, qualquer grande agitação de massas deste género visa inscrever na opinião pública e na agenda políticas as reivindicações. Até porque só é possivel debater se a generalidade da opinião pública tiver em seu poder informação suficiente para o fazer.

Uma questão deixo no ar, transcrevendo Robert Dahl, um insuspeito teórico da democracia liberal: what underlying conditions favor democracy?

Usem o dicionário se preciso, mas reflictam… O que está em causa é a qualidade de uma democracia onde a informação é selectiva ao ponto de silenciar factos e acontecimentos. E este é um problema de todos nós, e não só deste ou daquele sector.

sábado, 23 de Janeiro de 2010

O Europa


Temo que da Lisboa da minha infância, aos poucos, nada reste. Aquela velha Lisboa, renascida de Abril, tinha elementos absolutamente míticos para mim. Eram eles, os grandes cinemas, por sinal, heranças da ditadura.
Deslumbrava-me sempre quando, de automóvel, cruzava o Saldanha e me perdia no magnânime cartaz do Monumental. Recordo o Alvalade, onde vi, por exemplo, a “Música no Coração” numa reprise de verão. O Império, que há-de sempre ficar ligado a “Lawrence da Arábia”, filme que me fez sentir com areia nos pés de miúdo no final de uma matinée. O Pathé, onde a minha avó me levou a ver um filme da “Sisi” interpretado pela deslumbrante Rommy Schneider, uma das minhas paixões de tenra infância.

Disso, nada mais existe. O Monumental é um edifício dito moderno de gosto duvidoso e na memória registo melhor os tempos em que ali nada existia do que aquele tão belo cinema em que vi, entre outros filmes, o “Ben-Hur” (também numa abençoada reprise de verão). O Alvalade é hoje um condomínio e por lá está um multiplex que se quer alternativo mas ao qual auguro um futuro algo inconsistente. No Império, louva-se um senhor que rende muita massa e, de bom, só a iniciativa de ver resgatado aos vendilhões da fé o histórico Café Império (o que, diga-se, é hoje digno de ser um sinal de modernidade por aquelas paragens). Quanto ao Pathé, a triste sina é ser um edifício devoluto que, de tão emparedado numa zona em constante decadência, ainda não foi alvo da cobiça da pior espécie que este País produziu: os patos-bravos!

Ontem, a cidade de Lisboa soube, definitivamente, que iria perder outro local mítico: o velho Cinema Europa, em Campo de Ourique. É certo que o Europa a funcionar é algo que não recordo. Ligo-o às emissões de televisão que por lá se fizeram – os directos do Júlio Isidro e os concursos do Carlos Cruz, talvez. Lembro-me de lá passar frequentemente numa determinada altura da minha vida com o edificio fechado, e de sentir que não me era indiferente pela sua beleza arquitectónica, a fazer lembrar salas desaparecidas tão intimamente ligadas à minha infância.

Agora, sabe-se que o Europa vai mesmo abaixo. Independentemente do IPAAR, ou seu sucedâneo, o reconhecer como edifício com características arquitectónicas muito específicas, nunca o classificaram, vá-se lá saber porquê! Diz-se que serão preservados alguns aspectos do actual edifício, como o alto-relevo e os vitrais. E, se a Câmara de Lisboa arranjar uns trocados talvez seja possível reservar-se um piso (provavelmente o térreo) para um centro cultural de base local.
Porém, para sempre, aquele cinema, aquela sala histórica de Campo de Ourique morrerá. Em nome de um desenvolvimento pacóvio que está a destruir a cidade, a extrair-lhe vida e a matar lentamente os bairros que perdem pessoas e motivos para continuarem a existir enquanto verdadeiros centros da comunidade. O que interessa é sempre a rentabilidade financeira que um qualquer condomínio, futuramente habitado por gente que estaciona o automóvel na garagem e quando saí à rua ruma a um shopping de subúrbio, trará a uns quantos tratantes aos quais nada mais interessa que um ocasional bezerro de ouro. A custas, uma vez mais de Lisboa e dos lisboetas.

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Essa Liberdade de Expressão

Estou provavelmente em ressaca de “Caim”. Quero ter a liberdade de discutir com deus, mas também com os homens. Sinto que as verdades deste mundo violam simplesmente algumas regras predefinidas… o quanto odeio predefinições, por achá-las pacóvias e mesquinhas, nascituras de ocasos aleatórios de decadência extrema. Porventura, mesmo castradoras e exangues nas abordagens. Porque o maravilhoso na nossa individualidade somos nós, e por mais que seja dolorosa, tenhamos que conviver com ela, a debilitada individualidade.
Mas, comecemos pelo princípio da narrativa, que pomposamente assim se chama por não querer o autor apelidá-la de episódica ou meramente fugaz, porque assim são as normas do português vivo e olvidado das palavras ainda não contempladas nos mistérios da objectividade e da síntese.
À séria, acabo de ler, no último número da revista do “Clube de Jornalistas”, o seguinte:
Há um jornal na praça que se orgulha de escrever tudo em trinta linhas e usar 100 palavras, uma coisa dessas. As razões decorrem do facto {o autor é brasileiro e usou “fato”} de que o jornalista despreza o público nativo. Ele tem a certeza de que a maioria é composta por imbecis. (…) Eles tentaram se adaptar à imbecilidade dos leitores”
A autoria destas palavras vem de Mino Carta, jornalista brasileiro de origem italiana, ex-editor de algumas das mais importantes publicações brasileiras, e a crítica assenta que nem uma luva no perfil editorial da revista Veja, a mais vendida e difundida no Brasil. Reconhecem-na com certeza, na nossa lusitana praça, feita de is de informação ou públicos decompostos em combustão, para aqui não acrescentar essa espécie descrita como diários de... etc. e tal (sem favoritismos, digo eu que prezo a palavra de honra)?
Não vou esgrimir os argumentos de um jornalista brasileiro que considera o jornalismo brasileiro “medíocre”. O nosso também é; Olá, meus caros amigos, se é!
Há 10 anos, trabalhei num dos maiores jornais nacionais e depressa me apercebi que o jornalismo é um fúlgido exercício de manutenção da tentadora fogueira de vaidades em que mergulhámos; eis o 4ª poder, como hierarquizaria Toffler no cardápio das ordens humanas; o poder estéril, tacanho e opressor. Belos tempos em que se produziam jornalistas de carne e osso que entendiam o universo jornalistico como o caminho da verdade, olhando o mundo como um todo, enfrentando mordaças e becos inevitáveis. Rectas criaturas, louvado seja deus!
Bairro Alto, lembram-se? Explicito bem o burgo nacional destes seres, hoje "imundos" e ocasionais escritores, os que o são, aos olhos de puritanos e conservadores de espirito. E relembro, essa universidade conjugada num verbo inexistente, sempre universal, declinado em factos dignos como o de ser livre. Mesmo que os tempos detenham o método pernicioso de fazer parecer aquilo que não se é, livre, pois então! Duvidam? vejam os nomes de que lá sairam: pelo menos um nobel e mais uns quantos de costela hirta e esfíncter recto (apesar de honrosas excepções, que é nisto que se é humanamente belo, apesar de tudo o mais!).
Assustador, é quando me apercebo o que se passa, hoje! Creio cada vez mais na falácia da nossa academia que é burra, castradora e estupidificante. E, sem temores, o nosso mundo vai mal quando o supletivo é o conteúdo. Somos uma farsa. A nossa liberdade é uma farsa. Como o verbo o é!
Ai, o verbo o é! Duvidam?

domingo, 17 de Janeiro de 2010

"Caim" ou uma digressão pelo Antigo Testamento


Não bastavam Sodoma e Gomorra arrasadas pelo fogo, aqui, no sopé do monte Sinai, ficara patente a prova irrefutável da profunda maldade do senhor, três mil homens mortos só porque ele tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro, Eu não fiz mais que matar um irmão e o senhor castigou-me, quero ver agora quem vai castigar o senhor por estas mortes, pensou Caim, e logo continuou, Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito.
Caim”, José Saramago

Que raio de deus é este que louvam. O tal, esse ente omnipotente, omnipresente, omnisciente que ama os homens mas traz-lhes a desgraça, ou para simplificar, indo ao encontro do escritor, esse que não nos entende, nem nós o entendemos a ele. Este “Caim”, que José Saramago transformou viajante do tempo e do espaço entre episódios bíblicos do Antigo Testamento, vem marcado por deus e jogado à sua sorte no mundo, e pelo criador talhado há-de fazer das tripas coração para perceber onde está o bem que tanto se proclama vir do céu.
Por que dilemas e provações passará Caim nesta jornada bíblica, narrada à moda dos jograis, que se ainda os houvesse fariam coisa parecida com este grande pequeno livro de Saramago. Caim, o que matou o irmão porque o senhor o renegou. O que foi poupado para ver quão maléfica pode ser a justiça divina, capaz de derramar sangue ou cuspir fogo sobre cidades, ou exasperar-se com a criação e tudo prover inundar. E ali, condenado à existência solitária resta o debate sem fim com ele, o divino, o criador, esse louvado deus de glórias e misérias humanas e sobre-humanas.
foto: Diário de Notícias

sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

2010

(O primeiro ano da segunda década do milénio, a partir de fragmentos de um humanista ocidental)
Há dez anos atrás, o mundo encontrava-se suspenso por chegar a 2000, e a ameaça anunciada perfilava-se num bug informático que nos arrastaria para o caos. Parece caricato, como caricato parece relembrar o caos que se anunciou e nunca aconteceu. E nem pensar nas referências bíblicas ou nas profecias catastrofistas de Nostradamus e semelhantes charlatães de vistas largas que alimentam os mitos e os ritos de uma humanidade sequiosa por crenças e medos forjados nas incertezas do futuro.
Mas saltemos para o último dia do ano que findou. O ano que deixou para trás uma década onde tudo aconteceu daquilo em que a história dos homens é pródiga: fome, guerra, flagelos, vida e morte, e tudo mais. A nossa civilização rejubilante pintalgada em fogos de artifício, inovações tecnológicas e riqueza a rodos, ou a grande falácia em que nos instalámos, fazendo-nos tão prósperos que abandonámos a natureza mais autêntica da realidade em que vivemos? Porque se agora tudo é global, porque continuamos a pensar que o nosso estado civilizacional baseado em consumo e opulência é uma verdade inquestionável. Será porque teimamos em não entender nada do que se passa à nossa volta e preferimos escondermo-nos nas nossas carapaças de indivíduos tecnológicos?
Seria demasiadamente demodê, para não o considerar fora de tempo, lançar-me aqui num balanço do ano ou da década. Isso nem sequer faz sentido, mais ainda se estamos num estádio de pensamentos e de racionalidades imediatas e descartáveis. Em suma, nada mais seria que uma perda fastidiosa de tempo num feriado em que se pensa o que muda ou pouco muda a partir deste ponto do calendário. O que sucedeu ao longo dos dez anos passados sobre 2000 que nos mereça um registo consistente? - o impensável a 11 de Setembro de 2001? a guerra reeditada no Iraque e no Afeganistão? a crise do capitalismo global? a agonia do planeta?
Seguimos na continuação incerta de tempo irregularmente incerto. Vamos tentar perceber para onde nos leva o estado a que chegámos. Continuaremos iludidos, com certeza, até nos surpreendermos; é humano, demasiadamente humano! A crise económica, os fundamentalismos religiosos, os paradigmas que teimosamente persistem. A tudo isto, junta-se um planeta gritando socorro, e a ressaca das frustrações de Copenhaga a apontarem como somos estupidamente suicidas.
Hoje, aqui estamos. E, daqui a dez anos, como será? - Um novo ano, uma nova década, e tal como hoje, aqui e ali, uns quantos lutando por um mundo melhor, mais livre, mais equilibrado e mais justo. Em nome da humanidade, que essa bandeira seja hasteada por cada vez mais gente, rumo a um futuro necessariamente comum.

sábado, 26 de Dezembro de 2009

A culpa é dos feriados!

A quadra natalícia é propícia à distracção e à quase total alienação das pessoas em relação ao que as envolve. Independentemente da sociedade de informação em que vivemos não dar tréguas, alguns mentores de ideias peregrinas aproveitam, em nome dos grupos de interesse que representam, antecipar algumas estratégias, como que a preparar terreno para o futuro. O poder político também não resiste normalmente à quadra para efectivar algumas medidas que, de outro modo, surtiriam vagas de impopularidade se lançadas no impacto imediato dos dias mais triviais.
Este ano, um tal de Paulo Nunes de Almeida, vice-presidente da Associação Empresarial de Portugal, decidiu brindar os portugueses no dia de natal com uma medida de combate à crise: a redução do número de feriados, e o eventual alargamento da carga horária de trabalho. Trata-se de uma proposta para ser encarada como um “esforço colectivo” a tomar numa altura em que está em causa “a sobrevivência dos postos de trabalho”. Segundo esta sumidade do pensamento empresarial português, Portugal ultrapassa em feriados a média europeia, pelo que esta situação deverá ser revista em nome da produtividade do País.
Mas este representante dos empresários de Portugal, aferindo dos impactos que a medida teria nos meios eclesiásticos (que, como se viu reagiram, pela voz do Bispo do Porto, contra) foi lesto em propor o dia 1 de Dezembro como feriado cobaia a ser extinto. Ora, o dia 1 de Dezembro, feriado que assinala a Restauração da independência de Portugal face a Castela, é perspectivada pelo empresariado português como um artefacto histórico, sem sentido numa época em que estamos inseridos num “contexto ibérico”. Hábil, Paulo Nunes de Almeida assinala mesmo que este tipo de comemoração é até “um pouco contra-natura”.
Demagogia à parte, porque este tipo de argumentação não só ofende a dignidade de um patriota (e, apesar de tudo, ainda os há) como roça mesmo o risível, é preocupante a chantagem permanente que acossa os trabalhadores portugueses. De facto, este tipo de intervenção patética que vem sendo habitual no patronato português - o mesmo que pedincha compensações para aumentar o ordenado mínimo, ou coloca o país a tentar competir com chineses e novos estados membros da União Europeia quando deveria ter dado o salto para outro estádio de desenvolvimento há mais de uma década – revela bem o subdesenvolvimento intelectual em que nos situamos quando nos referimos a empresariado.
Os grandes males que afectam os índices de produtividade em Portugal não estão nos trabalhadores nem nos seus direitos. Eles residem, acima de tudo, no ultramontanismo da maior parte dos detentores dos meios de produção. E não será de estranhar que, com a democracia consolidada como se afirma quase sempre, gente da estirpe deste tal de Paulo Nunes de Almeida não venha acenar com a suspensão do 25 de Abril ou com esse feriado de conotações demasiadamente proletárias que assinala o Dia do Trabalhador. Até porque neste sentido, depressa se entende que a solução passa pelo “esforço colectivo” dos mesmos de sempre. Para que a riqueza floresça em nome do País mais desigual e com os salários mais baixos per capita da União Europeia. Mas, veja-se, a culpa provável, até pode ser dos feriados!

domingo, 13 de Dezembro de 2009

Um Doce Abandono

Portugal não esteve, está ou estará em crise. Portugal é a crise. Que o digam alguns dos nossos compatriotas que, escancarando-se a janela de oportunidade, se puseram ao fresco. Recordemos apenas Guterres e Durão, dois renunciantes ao país da crise que foram ao encontro da diáspora dourada com o rectângulo Atlântico da Europa a meter água por todos os lados. Se para o primeiro havia o medo de se atolar no pântano, para o outro faltava engenho para vestir um manequim de tanga. Retórica metafórica à parte, estes senhores deram o salto na hora certa porque o pior, como se vê, estava ainda por vir.

Mas as diásporas douradas inerentes a cargos internacionais são para quem pode, não para quem quer – ou o País arriscava a desertificação massiva. Que o diga o governador do Banco de Portugal que, esgotado de cansaço por andar a pregar sacrifícios necessários aos outros enquanto se deleita num dos salários mais fartos do mundo e faz vista grossa às negociatas das instituições de agiotagem lusitanas, se prepara para abandonar o barco. Com o alto patrocínio do camarada José Sócrates que, na sexta-feira passada, formalizou a candidatura do companheiro à vice-presidência do Banco Central Europeu.

Introduzindo neste episódio alguma seriedade, não deixa de ser inquietante que, após o desempenho de Vítor Constâncio à frente do Banco de Portugal, venha o Primeiro Ministro sugerir esta candidatura. Como de inquietações se vai fazendo a crise, o Presidente da República veio ontem subscrever a proposta, argumentando que “o colega dos tempos do Banco de Portugal e contemporâneo de academia tem muita competência para o desempenho do cargo”, honrando assim o eventual bom nome do País no exterior.

Depois dos episódios que rodearam a supervisão deficitária e negligente à banca nacional por parte da entidade com competência para tal, o Banco de Portugal, Vítor Constâncio, um dos principais responsáveis pelos custos infligidos à economia nacional pelo sector bancário, prepara-se para ver reconhecido o seu “competente” trabalho com uma promoção europeia. É demasiado inquietante que Constâncio não tenha respondido como devido pela sua “competência”, e ainda é mais inquietante este doce abandono que se anuncia com o patrocínio das mais altas individualidades do Estado Português.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

O Olhar de Korda

Na semana que agora passou estive, em trabalho, na Cordoaria Nacional a fazer o acompanhamento de uma visita pela exposição Korda Conhecido Desconhecido – com cerca de duzentas fotografias do famoso fotógrafo cubano Alberto Korda, autor da célebre fotografia do Che, Guerrillero Solitario -, guiada pela comissária Cristina Vives, acompanhada pela filha mais velha do fotógrafo, Diana Díaz, que tive o prazer, no final, de entrevistar.
A experiência da visita à exposição ficou marcada pela riqueza artística absolutamente estimulante da obra de Korda. Um fotógrafo que começou na moda e na publicidade, focando a sua objectiva na beleza feminina, e que depois transportou toda essa visão de sedução para um dos momentos mais inspiradores do século XX, a Revolução Cubana. E, sobretudo, para o seu líder, Fidel Castro.
Após a visita, complementada com um arrebatador documentário que incluía uma das últimas entrevistas a Alberto Korda, cheguei à fala com Diana Díaz. Apesar de ela não entender o meu português por mais que tentasse entrecortar as palavras, e de não me sentir disposto a expor o meu medíocre castelhano, um tradutor acabou por levar-lhe as minhas poucas perguntas e fazer a ponte para que conseguíssemos dialogar.
Incidi as questões fulcrais da entrevista baseando-me nas minhas próprias dúvidas enquanto estudioso ad-hoc do tema que domino com alguma coerência, sublinhando a relação de amizade que ligava o fotógrafo a Fidel Castro até 1968. Eram amigos íntimos, amigos de sempre, homens ligados na amizade que se reconheciam mutuamente pela inteligência e pelos ideais humanistas que os uniam. Diana falou-me de tudo isso, da relação intensa entre o líder político e o fotógrafo durante aqueles anos fulgurantes da Revolução Cubana.
Depois, cada um seguiu o seu rumo, como se houvesse um destino que ditasse papéis distintos, inconciliáveis para que o percurso de um e de outro se mantivesse simétrico. Mas, garantiu-me Diana, permaneceram sempre ligados por um forte sentimento de amizade e respeito, que só se rompeu em 2001, com a morte de Alberto Korda, em Paris.
Quando se pesquisa e lê o que se escreveu e disse sobre Korda, sente-se que esta separação nunca está bem explicada. Referi essa inquietação a Diana, temendo que estivesse a entrar por um caminho delicado. Abordei a dúvida invocando o ano de 1968, quando o Estado Cubano, através da “Ofensiva Revolucionária”, tomou todos os pequenos negócios privados em Cuba, incluindo o Studio Korda e consequentemente todo o espólio fotográfico aí reunido.
Apelando ao maior rigor possível na transmissão das suas palavras quanto ao que me iria contar, Diana falou-me do quanto esse excesso revolucionário (as palavras são minhas) magoara o seu pai. Mas Korda manteve-se sempre fiel à revolução, mesmo que a dinâmica política e social caminhasse para uma institucionalização crescente. Ao que me contou, o país institucionalizou-se, aqueles que rodeavam Fidel também. Era tempo de Alberto Korda escolher entre a sua própria institucionalização, que garantiria continuar a seguir o líder cubano, ou a liberdade enquanto fotógrafo e artista. Entre tornar-se militar ou quadro do partido comunista, Korda escolheu ser livre, livre para criar e fazer o que mais gostava: a fotografia.
Nas palavras de Diana, Korda teve três grandes paixões na vida, as mulheres, a Revolução (e consequentemente Fidel) e o fundo do mar. Era então tempo de se virar para aquela que a sua objectiva ainda não tivera a hipótese de explorar: o mar. Durante mais de dez anos fez, em Havana, fotografia subaquática; um refúgio e uma vontade.
Como sempre, quando se fala sobre o passado, a minha entrevistada terá deixado muito para contar. Não é objectivo do meio para onde escrevo fazer artigos ou entrevistas de fundo. Porém, no essencial, a virtude daqueles minutos foi trazer mais alguma luz sobre a relação entre dois homens absolutamente fascinantes, ligados pela admiração e amizade mútuas. E quando Korda faleceu, Fidel esteve lá para um último adeus.
Concluí a entrevista, apertei a mão a Diana e retirei-me. Durante alguns segundos, quase à saída do espaço expositivo, detive-me a observar uma foto de Korda com Fidel, captada por um fotógrafo não identificado. Ocorreu-me que acabara de estar com a filha de um homem que conheceu e privou com lendas do nosso tempo, Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara. Foi como se por resquícios de tempo e espirais de espaço incerto tivesse eu também privado com eles. Hasta siempre!

fotos: Alberto Korda

Entrevista disponível em Lisboa Cultural, nº 142

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Coppola

Hoje, em conversa com um amigo que esteve presente no Estoril aquando da apresentação de “Tetro”, o último filme de Francis Ford Coppola, ocorreu-me que numa lista prévia que fiz de “filmes da minha vida” (os quais dou eco num blogue ocasional com o mesmo nome) só incluía um único título do realizador norte-americano, “Apocalypse Now”. Equívoco meu, o qual depressa rectifiquei através de uma breve consulta a um sem-número de notas que dediquei a filmes de Coppola, da saga “O Padrinho” a “Drácula”, passando por “One From the Heart” ou “Os Marginais”. Filmes que inevitavelmente patrocinaram em tom aceso e flamejante o meu amor pelo cinema.
Coppola, que incoerentemente talvez, por circunstâncias errantes dos caminhos da cinéfilia e das modas instaladas cá pelo burgo, se tornou um autor algo negligenciado nos últimos anos, apresenta-se hoje, mais uma vez, como um nome incontornável da história da sétima arte, ao nível dos grandes mestres do cinema clássico norte-americano. Para isso bastou uma vinda a Portugal para um festival de cinema e toda a gente aclama este great director que deu estampa a alguns dos mais notáveis personagens do cinema moderno: Michael Corleone (Al Pacino), em “O Padrinho”; Coronel Kurtz (Marlon Brando) e Tenente Kilgore (Robert Duval), em “Apocalypse Now”; Leila (Nastassja Kinski), em “One From the Heart”; Motorcycle Boy (Mickey Rourke), em "Rumble Fish"; Conde Dracula, em “Dracula”. São apenas parte de um elenco de personagens que me vincam a memória e me levam a considerá-lo, com a maior das reverências, um dos maiores realizadores da história do cinema.
Mas nem só de grandes personagens se compreende o cinema de Coppola. Este ítalo-americano de Detroit que fez um punhado de obras-primas ao longo da sua carreira, custeando em prol da arte suprema a sua própria sanidade e a sua sustentação financeira, e que hoje promove os seus filmes mais ou menos experimentais a custas da vinicultura produzida nuns largos hectares californianos, produziu cenas arrebatadoras que assaltam forçosamente o nosso imaginário cinéfilo. Daquela história de amor maior que a vida, numa Las Vegas imaginada em decors de néon, de “One From the Heart” à abertura operática de uma selva a eclipsar-se sob um bombardeamento ao som de “The End”, dos Doors ,nessa demência permanente que foi, e é, “Apocalypse Now”, ou ao desespero silencioso de Michael Corleone a amparar a filha assassinada na escadaria da Ópera de Palermo, em “O Padrinho III”. Três singelos exemplos de arte maior que, como uma dádiva suprema, Coppola registou para a posteridade.
Fez-me bem falar hoje sobre Coppola. Deu-me vontade de agarrar nuns quantos dvds que espreitam das prateleiras lá de casa e dedicar-me a rever muito deste grande cinema. Ainda mais porque, em Coppola, como nos grandes mestres italianos ou em alguns contemporâneos de excepção como Scorsese ou Lynch, se encontram sempre motivos superiores para justificar a mais atenta das revisões. E, enquanto o tempo não me permite uma saltada obrigatória ao King para espreitar este “Tetro”, arrisco a respirar alguns dos filmes da minha vida, como o já citado “Apocalypse Now” (a versão “redux” potencia ainda mais a experiência) ou esse musical único e, ainda hoje, surpreendente que é “One From the Heart”.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Caindo de Podre

Os mais cépticos quanto à Revolução de Abril – alguns dos quais longe de serem apologistas do salazarismo – apontam muitas vezes que o 25 de Abril foi resultado do estado de decadência do regime, ou seja, “o regime caiu de podre”. Na verdade, a história nunca é tão linear quanto as tentações que regularmente nos levam a conjecturar e afirmar as certezas mais certas, logo, esta afirmação enferma no simplismo se não encontrar troços mais alargados para se sustentar. Não há propriamente sentidos únicos na história, sobretudo quando tratamos a contemporaneidade e nos envolvemos mais com os vivos que com os mortos. Portanto, há inúmeras vias para explorar e desenvolver o assunto, sem retirar ou subestimar seja qual for a perspectiva de análise e grau de distanciamento dos factos.
Olhando para as mais diversas leituras que foram feitas sobre o fim do Estado Novo, é justo percebermos que, para além de outros factores mais complexos, o regime estava de facto “podre” e isso proporcionou a conjuntura favorável ao golpe que desencadeou a transição para a democracia. No fundo, este fenómeno histórico tinha que acontecer naquele momento porque as fraquezas do poder eram cada vez mais evidentes, sobretudo pelos efeitos da guerra. Em oposição, poderemos fazer a comparação com o que se passou no pós-guerra, logo a seguir a 1945, quando os ventos que sopravam eram favoráveis à mudança, com a derrota do nazismo e do fascismo, e no povo português se desenhava uma explícita vontade de pôr fim à ditadura. Porém, nessa época, o regime teve capacidade de responder e frustrar (através dos recursos mais abjectos e desumanos à mercê de um Estado policial e repressivo) a vontade popular.
Há uns anos atrás, num seminário de investigação em que os oradores compunham um séquito dos mais notáveis da academia portuguesa, daquela que escreve regularmente nos jornais e aparece na televisão e teima em dourar a investigação social com intrincados processos metodológicos e números complexos ao serviço da ciência, considerava-se que a democracia portuguesa era já suficientemente adulta para estar absolutamente consolidada. Num ímpeto intervim, questionando o painel se isso significava uma espécie de fim da história, aventando a hipótese de estarmos de tal forma seguros da nossa democracia que nada a poderia prostrar, independentemente da integração em instituições supra-nacionais, como a União Europeia e a NATO.
Como é evidente, nem estávamos no fim da história – a tese fez, nos últimos anos, furor com Fukuyama mas depressa se revelou um logro – nem nenhum regime se consolida tão solidamente que não possa ser derrubado ou (recuperando a tese do “regime que cai de podre”) derrubar-se por si mesmo, independentemente das estruturas supra-nacionais às quais pertencemos. Estando completamente de acordo com a resposta à minha inquietação, senti que o sentido dado procurava um equilíbrio mais científico que racionalmente hipotético, como se não devêssemos sequer equacionar que mesmo as mais evoluídas democracias podem um dia ceder. Até porque esses factores externos, essa espécie de guardiões supra-estatais que mantêm a ordem e vigiam o sistema político do ponto de vista da manutenção do regime mais favorável ao concerto dos Estados membros, podem também falhar. Num resumo, a história anuncia que a democracia, como qualquer outro regime, não será perpétua; a vontade, por mais hipotética que se revele, procura que esta democracia o seja.
Apesar de condicionantes e variáveis de diversa ordem, é ponto assente que qualquer modelo de democracia se constrói permanentemente; é insuficientemente inacabado na medida em que exige dos cidadãos esforços que as paternalistas ditaduras arrancadas à história jamais poderiam conceber. E, assim, chegamos a um ponto fulcral: a construção permanente da democracia como sinal da sua própria consolidação, partindo do princípio quase unânime de que o poder do povo e pelo povo é mais frágil do que qualquer outro, sobretudo se o povo não entender que é ele, mais que uma entidade abstracta colectiva, quem deve comandar, sem limitar apenas ao voto esse mesmo poder. Viveremos então numa democracia?
O politólogo norte-americano Robert Dahl classificou o que, regularmente, denominamos de democracias de modelo liberal como poliarquias. O que, e de forma muito sucinta, compreende os regimes nos quais o poder se estratifica em múltiplos pontos dispostos horizontalmente, permitindo que, em igualdade de circunstâncias, haja disputa política por grupos plurais e em que a base de participação política é significativamente alargada. Para a maioria dos estudiosos, o modelo de democracia predominante no ocidente é este uma vez que ele reflecte, aparentemente, o modelo norte-americano.
Num aparte, explico o uso do “aparentemente”, porque as democracias (poliarquicas ou em vias de o ser), à semelhança dos regimes ditatoriais, vivem também de aparências e manipulações constantes, sendo duvidosas as estratificações horizontais do poder quando nos confrontamos com factos e dados concretos. Divergem sim, e isso é unânime, nos métodos e nas formas como o Poder constrói as suas formas de legitimação. Talvez por isso, existe a perspectiva de se cultivar formalmente nas poliarquias a figura da separação de poderes, que serve para legitimar opções e actos concretos do sistema político e empreende, com o sufrágio e a liberdade de expressão, a imagem mais vincada de um regime democrático.
Voltando à poliarquia e centrando a análise na observação do caso português, depressa nos apercebemos que enfermamos de igualdade de disputa política (como quase todas as poliarquias do mundo, sobretudo a mais poderosa, os EUA) e ainda mais desigualdades na participação dos cidadãos, seja por uma deficitária cultura cívica, seja por bloqueios geridos pela efectiva partidocracia que caracteriza a sociedade portuguesa. A imperfeita democracia portuguesa (insuficientemente poliarquica, apesar da institucionalização de grupos de pressão e de inúmeros grupos de interesse que apostam na invisibilidade ao contrário do lobbie à maneira anglo-saxónica) esboroa-se agora no rotundo falhanço do seu sistema de separação de poderes e na perversa ligação que envolve os poderes políticos, económicos e judiciais. Este falhanço contamina permanentemente a consolidação do regime democrático, minando a sua credibilidade e a sua continuidade, como se tal pudesse significar um argumento de erosão acelerada do regime.
Enfrentando para além de uma crise externa, uma crise económica estrutural causada em larga medida pela delapidação dos recursos por parte de grupos ligados aos poderes ou a segmentos do próprio poder político executivo, Portugal perfila-se como um novo desafio ao estudo dos fenómenos políticos. Se os politólogos americanos enalteceram o pioneirismo português naquilo que denominaram a terceira vaga de democratização, hoje, pelas falhas estruturais nunca superadas e pelas deficientes supra-estruturas que os agentes políticos erigiram ao longo destes 35 anos, talvez seja caso para questionar se Portugal não poderá vir a tornar-se, de novo, pioneiro num outro sentido. À imagem do velho e tacanho regime que o antecedeu, não estará este também caindo de podre?